Notícia

Por que as revistas esportivas estão fora de campo?

16/12/11

Se a Copa do Mundo de 2014 já começou para o Brasil em 2011 e a Olimpíada de 2016 do Rio de Janeiro movimenta todos os setores desde agora, pelo menos para as revistas essa premissa, por enquanto, não vale. Ao contrário dos demais meios, como a TV paga e inclusive do próprio segmento, em que títulos sobre os mesmos temas proliferam nas bancas, as revistas esportivas, diferentemente do que se poderia supor, são um universo em contração, e não em expansão.

Apenas dois títulos dividem esse segmento no Brasil: as revistas ESPN (do mesmo grupo que opera os canais ESPN e que mantém parceria com o Estadão no rádio) e a Placar, da Editora Abril. Fora do circuito revistas, a cobertura esportiva, no papel, está a cargo dos jornais e, na internet, se estende pelos portais e sites temáticos.

Na opinião da gerente de marketing da Asics Brasil, Andrea Longhi, é uma questão de foco, pelo menos neste momento: “Como o running é carro-chefe da Asics, posso afirmar que grande parte das revistas esportivas está ‘dentro das pistas’, tendo como foco editorial fitness e corrida. Nos últimos anos surgiu uma série de publicações especializadas nesses temas, voltadas para diversos tipos de público, com opções de revistas para mulheres corredoras, para quem quer começar a correr e até mesmo publicações voltadas para o corredor de alta performance. Tivemos até a entrada da Abril no segmento. Boa parte de nosso plano de mídia está focada nessas publicações”, afirma.

Mas a executiva acredita que, em breve, haverá mudanças: “Até os Jogos Olímpicos do Rio em 2016 uma nova leva de revistas ainda virá. Espero que esta onda positiva se reflita também nos outros esportes, dentro e fora dos campos e das quadras, pois a informação é ferramenta necessária para incentivar novos atletas e praticantes”, diz.

Ante o reduzido percentual de títulos na comparação com os dois grandes eventos mundiais que se aproximam e com o interesse do público cada vez mais voltado para conteúdo, inclusive esportivo, o Meio & Mensagem ouviu a opinião dos responsáveis pela já citada revista Placar e também pela revista ESPN e ainda um analista e um profissional de mídia e pergunta: Por que as revistas esportivas estão fora de campo? A seguir, a opinião de cada um sobre a reduzida participação dos títulos esportivos no meio revistas.

Veículo

“O mercado de revistas mudou muito e continua a mudar. Antigamente, comprávamos revista para nos informar, o que não faz o menor sentido no mundo de hoje. Nos segmentos em que havia muitas publicações, a própria concorrência fez com que algumas se mexessem antes que as outras para entender isso, e voltar a ser relevantes para o leitor. No de esportes, porém, isso não aconteceu. Além disso, o único título disponível no segmento mudou de posicionamento seguidas vezes, o que ajudou a alienar ainda mais o público. Para a ESPN, que chegou ao mercado já neste novo momento, o desafio não é só se estabelecer, mas sim reabrir um segmento que, além de dispor de poucos leitores, era virtualmente ignorado pelas agências e anunciantes. A vantagem é que, não tendo vínculos com o passado revisteiro, editamos uma publicação pensando no mercado como ele é, sem a obrigação de falar de Flamengo e Corinthians em cada edição, mas sim em contar boas histórias, buscando um leitor de maior nível cultural e poder de consumo. Isso faz diferença para o leitor e para agências e anunciantes.”

Especialista

“Às vésperas de receber os dois maiores eventos esportivos do planeta, o fato é que pouco falamos sobre esporte. Ou melhor, falamos demais, mas comunicamos quase nada. Temos diversos veículos de internet, jornais fortes, televisão e rádio idem. Mas por que as revistas não decolam? O mercado editorial é de nicho e, assim, precisa viver da comunicação voltada para esse público. E aí é que está o grande enrosco do País que fala de esporte, mas não comunica o que investe nele. Hoje, são pouquíssimas as empresas que fazem a comunicação voltada para o investimento no esporte. Enquanto essa mentalidade não mudar, qualquer nova publicação terá vida curta. A conta do custo por mil que ainda rege a maioria do mercado publicitário é outra dificuldade do negócio. Como fazer para concorrer com uma Veja quando o critério usado não é a qualidade da mensagem enviada ao público, mas a quantidade de pessoas com quem se fala? Precisamos aprender a comunicar mais a partir do esporte. Só assim falaremos
ainda mais sobre ele. Inclusive com publicações impressas.”

Veículo

“Se nos fixássemos apenas nos números de circulação de revistas poderíamos decretar que o Brasil é o ‘país da celebridade’ ou o ‘país do automóvel’ ou o ‘país da mulher’. Pela fria contabilidade do IVC, o País não é o ‘país do futebol’. Só que basta ir a qualquer padaria na segunda-feira pela manhã para ter a certeza de que o Brasil é, de fato, ‘O País do Futebol’. Por que diabos então o mercado impresso esportivo não é gigante em um país que ama tanto tudo isso? Placar nasceu em março de 1970 com essa missão. Nessa maratona de quase 42 anos, muitos ficaram pelo caminho. Dezenas de publicações nasceram com a suspeita de que ‘o país do futebol’ garantiria a sobrevivência de qualquer empreitada editorial e morreram com a certeza de que o ‘país do futebol’ é extremamente seletivo quando se trata de ler algo sobre o assunto. A mídia impressa é mais seletiva. Mas a história recomenda cautela. Vamos ‘falar’ muito mais de futebol, não necessariamente vamos ‘ler’ muito mais. E é aí que entra a tal da qualidade editorial. Quem se garante nesse jogo?”

“Realmente, é um fato a baixa demanda de títulos esportivos no mercado, mesmo que o segmento ainda apresente dois ótimos títulos como a Placar, com o maior acervo histórico de reportagens do futebol brasileiro, e a revista ESPN, apoiada em uma marca esportiva que é referência internacional. A ausência de um mercado de revistas esportivas mais competitivo é ligada principalmente à maneira como o público passou a consumir informações sobre esporte. O crescimento da internet e a proporcional força dos sites especializados, blogs e redes sociais, ainda que apoiados em versões impressas de jornais e revistas, acostumou o público com notícias em tempo real e ligadas diretamente ao seu interesse. Já existem portais esportivos que entregam mais de cinco milhões de pageviews em um único dia. Perfis dentro do Twitter que trazem notícias do seu time, como o @SigaSeuTime, têm mais de um milhão de seguidores para todos os clubes. Então, também quando o assunto é esporte, o consumidor tem se decidido por consumir a notícia de maneira customizada e no momento que desejar.”

Fonte: M&M