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10 tendências de consumo no Brasil e na América Latina

03/09/12

Marcas ajudam a organizar o caos urbano, fragmentam as opções de consumo e engajam clientes em atividades comunitárias

“Por que consumidores aceitam ficar em filas, esperando por tanto tempo para comprar um produto ou usar um serviço?”, provocou Luciana Stein, diretora da trendwatching.com na América do Sul e Central. A resposta, segundo ela, vai bastante além do produto e da compra, em si.

“Essas pessoas estão nas filas porque querem experiências que as transformem, sejam essas experiências derivadas de um produto ou um serviço”, explicou. “O novo é uma promessa de transformação”.

Luciana esteve ontem no Seminário de Tendências de Consumo da consultoria, em São Paulo, onde falou sobre as inovações que estão movimentando as pessoas, as marcas e o consumo na América Latina.

Veja a seguir 10 tendências citadas e exemplificadas pela pesquisadora.

1. Newism

Trata-se de uma nova zona de experimentação, em que os consumidores, principalmente os residentes na América Latina, buscam cada vez mais o novo, o inédito e personalizado.

“Newism está relacionado ao desejo por inovação em um estado e espírito de vida”, diz Luciana. “Para isso, também precisamos falar de escolhas: mais dinheiro resulta em um maior número de escolhas,  e isso é potencializado com a emergência da classe C”.

É dessa tendência, segundo a diretora da trendwatching.com, que surge também a segmentação do mercado em nichos cada vez mais especializados.

2. Flex Life

Com tantas opções, as pessoas precisarão de possibilidades de consumo cada vez mais curtas, rápidas e flexíveis para que seja possível aproveitar todas elas, ou pelo menos grande parte.

“O que era fixo, agora está pronto para ser fracionado em pequenos momentos, menos duradouros e mais ágeis”, afirmou Luciana.

Exemplos

Chasqui Bus (Peru): serviço que permite aos mochileiros obter informações, fazer reservas em hotéis e locações e comprar passagens de ônibus aos poucos, durante a viagem, sem a necessidade de reservar tudo antes de começar a “aventura”. Com isso, o mochileiro não precisa se preocupar em seguir um roteiro restrito e pode mudar de ideia se desejar passar por lugares que não estavam no planejamento.

Gym Pass (São Paulo): diárias flexíveis para academias, sem que seja necessário contratar um plano semestral ou anual. Você escolhe a academia, compra um passe diário para a aula que desejar e participa da aula.

Web Salão (Curitiba): um salão onde é possível contratar serviços de beleza como corte de cabelos e manicure pela internet e recebê-los no local solicitado. O pagamento também é feito pela internet.

Cochilo (São Paulo): aberto há menos de um mês em plena rua Augusta, em São Paulo, esse serviço permite o aluguel de uma cama para um cochilo rápido.

3. Bright is beautiful

Essa tendência está relacionada à valorização do estudo em função do crescimento profissional e do aumento da renda. O aumento da renda, por sua vez, impulsiona o desejo da expansão das fronteiras pessoais.

“Cada vez mais, as pessoas serão valorizadas pelo que sabem e empreendem”, explicou Luciana.

Exemplos

Vivo: a operadora criou o “Vivo Português com Professor Pasquale”, uma aula de português acessada por SMS, portal de voz e site.

Geeknic: piquenique de geeks criado em Bogotá, na Colômbia.

4. Eco Status

A valorização do sustentável também como uma forma de status. Tanto para indivíduos quanto para marcas, a ideia do verde e do ecológico está cada vez mais presente em atitudes e campanhas.

Exemplo

VERDEate (Colômbia); plataforma online que faz associações com organizações e empresas para incentivar experiências mais sustentáveis, mesmo que seja durante algumas horas por semana.

5. Mi casa es su casa

Diz respeito à generosidade na América Latina e às diferentes formas encontradas pelas empresas para retribuir gestos altruístas de consumidores que ajudam a mudar a realidade social dos lugares onde vivem.

Exemplos

Buchannan’s (Venezuela e Colômbia): a marca de uísque escocesa propôs a seus consumidores na Venezuela e na Colômbia que doassem 4 horas semanais para atividades comunitárias e educacionais. Em retribuição, a bebida organizou um concerto de rock somente para os voluntários. Detalhe: a banda, anuncianda somente no final do projeto, foi a famosíssima “The Smashing Pumpkins“.

Um Teto para Meu país (Brasil): hoje chamada “Teto”, a ONG atua em 19 países da América Latina e convida jovens a ajudarem na contrução de casas emergenciais e para comunidades carentes, atuando em programas de habitação social.

Recentemente, a organização retribuiu voluntários gravando seus nomes nos pregos usados na construção das casas. Os doadores ainda puderam acompanhar, por meio do aplicativo Prego Maps, a localização da casa construída com sua ajuda.

6. Latin Love

O orgulho de ser latino-americano. Algumas marcas que resgatam a “latinidad” estão conseguindo se aproximar dos consumidores.

Exemplos

Club Colombia (Colômbia): a marca de cerveja criou uma campanha chamada “Orgullo perdido”, em que reuniu pessoas que aprenderam ofícios artesanais desde pequenos, com seus pais e avós, para ensinar os mesmo ofícios a gerações mais novas como forma de não deixar a cultura morrer.

Depois de reunir os artesãos em grupos e criar páginas para todos no Facebook, a marca convidou consumidores para uma votação online que decidiria qual das comunidades receberia mais dinheiro para desenvolver projetos e oficinas.

Cómo se dice: aplicativo que traduz gírias para diversas línguas latinoamericanas.

7. Souvenir 2.0

Além de ajudar resgatar a história de comunidades, no Souvenir 2.0 esses resgates ajudam a traçar uma nova lógica de compreensão dos lugares e seus personagens, valorizando, em alguns casos, características hiperlocais. Pode ser feito de forma colaborativa, ecosustentável, customizada e com forte compromisso ético.

Exemplos

No brand (Argentina): designers se reuniram e criaram produtos baseados na iconografia argentina, retratando as pessoas mais representativas das comunidades.

Brasil Quest (Brasil): lançado pela Embratur, o jogo digital tem app para iPhone e Android e é baseado na história de um extraterrestre que chega ao Brasil e precisa passar por diversos desafios para saber mais sobre o país.

8. I Love my City (reloaded)

Aqui, os desejos de transformação surgem do indivíduo e se expandem para a esfera coletiva. “I Love my City” parte da relação que as pessoas têm com as cidades onde vivem para um redesenho dessa relação.

“Vemos aqui marcas ajudando pessoas a lidar com o caos e o descuido urbano, ressignificando a maneira como as pessoas vivem hoje nesses centros”, comenta Luciana.

Exemplos

Buus (Brasil): aplicativo colaborativo do Rio de Janeiro que identifica a proximidade dos ônibus urbanos e avisa o status de lotação do veículo.

Urbanizas (México): app que traça de forma colaborativa os problemas das grandes cidades e cria um mapa urbano.

Shoot the Shit (Brasil): coletivo urbano de Porto Alegre que, ao perceber que os pontos de ônibus da cidade não traziam a indicação sobre quais linhas passavam pelos locais, colou adesivos de sinalização em que as próprias pessoas podiam ajudar a identificar as rotas. Com base neste projeto, a prefeitura municipal modificou a sinalização da cidade. O próprio Shoot the Shit foi chamado para participar do projeto.

Astrovandalistas (México): coletivo translocal com sede na Cidade do México que criou uma “arma sonora“. “Queremos amplificar o questionamento coletivo sobre o espaço da violência na história recente do México”, diz o grupo em seu site.

Ao encontrar uma grande estrutura metálica abandonada na cidade, o grupo instalou 64 tubos galvanizados conectados a um motor. Integrado ao Twitter, o mecanismo dispara um barulho altíssimo cada vez que alguém protesta usando a hashtag #BANGCampoMarte.

“Essa estrutura cria uma perturbação entre offline e online”, comenta Luciana. “Isso é uma identificação de situações e lugares em que as marcas poderiam estar. Estamos falando de marcas que começam a integrar movimentos, muito mais do que apenas estampar o logo”.

9. Safety Net

Aplicativos ajudam consumidores a se proteger da insegurança e dos perigos de grandes centros.

Seguridad en línea (Colômbia): plataforma colaborativa de segurança que registra roubos, homicídios, perturbações da ordem pública e situações de violência em Meddelin.

Agentto (Brasil): app que instala uma central de segurança em tempo integram no smartphone. O usuário pode escolher pessoas de sua confiança, que receberão um aviso caso você acione um botão de pânico silencioso no celular.

10. Branded Government

A tendência de marcas agirem de forma progressiva nas estruturas, atuando em papéis que costumavam ser de governos torna-se cada vez mais forte.

Exemplos

Projimo (Argentina): agência de Buenos Aires que usa profissionais da publicidade para trabalhos volunetários em comunidade, ensinando pessoas a fazer anúncios, se expressar e se integrar a partir da comunicação.

A primeira campanha da Projimo chama-se “Momentos gratis“, e foi feita com vídeos enviados pelo público, com momentos importantes da vida dessas pessoas que não custaram praticamemente nada.

Fonte: Exame