Notícia

Mudança no consumo: a realidade brasileira que poucos veem

28/05/26

O Brasil está passando por uma transformação silenciosa, profunda e acelerada no comportamento de compra. Trata-se de uma mudança no consumo que já afeta supermercados, bares, restaurantes, drogarias e qualquer negócio que dependa do hábito do cliente.

Se você é empresário, saber disso pode ser fundamental para ampliar a visão sobre o consumo e orientar possíveis mudanças na oferta de serviços e produtos da sua marca.

O que acontece no Brasil não é uma crise, inflação ou sazonalidade: trata-se de uma troca clara de prioridades, impulsionada por novas escolhas alimentares, busca por saúde, intervenções médicas e um consumidor que mudou muito nos últimos anos. Os dados recentes mostram que o brasileiro está reorganizando sua rotina, seu carrinho e seu bolso. Quem não acompanhar essa virada corre o risco de perder relevância sem perceber.

Quer entender mais sobre essa mudança no consumo? Confira os resultados de três pesquisas importantes que ajudam a desenhar a realidade atual. Para facilitar a leitura, o conteúdo foi organizado em tópicos que mostram o que caiu, o que cresceu, por que bares estão esvaziando, entre outras informações para dar insights do que mudar na sua empresa.

O que está acontecendo com o consumo do brasileiro?

Nos últimos anos, o comportamento do consumidor mudou radicalmente, e alguns números podem nos trazer elementos para refletir sobre a mudança no consumo. O consumo de cerveja caiu quase 7%, o consumo de água mineral subiu quase 60%. A união de três pesquisas para analisar a mesma história.

Três levantamentos recentes mostram a mesma tendência, e poucos analistas estão conectando os pontos:

  • Pesquisa Scanntechpublicada pela Folha, ela revela que o carrinho do supermercado mudou completamente entre 2022 e 2025.
  • DIEESE — aponta aumento significativo da cesta básica nas 27 capitais em março de 2026.
  • ABRABAR — bares e restaurantes do Paraná tiveram queda de faturamento entre 28% e 40% no primeiro trimestre.

Separadas, as notícias parecem não se conectar muito. No entanto, se as analisamos em conjunto, vemos uma importantíssima mudança no consumo dos últimos 5 anos. Ela nos diz o seguinte: o cliente não sumiu e nem está sem dinheiro, ele só foi para outro lugar.

Muitos donos de bares e restaurantes, ao se depararem com a queda nas vendas, veem o salão esvaziar e pensam que é crise, inflação, falta de dinheiro. No entanto, o cliente está consumindo outras coisas:

  • comprando frango, ovo, sardinha, água
  • indo para a academia
  • escolhendo produtos mais saudáveis
  • reduzindo álcool, açúcar e ultraprocessados

O fato é que o carrinho do supermercado mudou. Mesmo os brasileiros mais pobres, cujo poder de compra teve redução, está fazendo escolhas diferentes.

Produtos que tiveram queda no consumo entre 2022 e 2025:

  • Miojo: –16%
  • Açúcar: –14%
  • Hambúrguer: –11%
  • Suco pronto: –11%
  • Margarina: –10%
  • Biscoito: –10%
  • Cerveja: –6%

Produtos com aumento no consumo:

  • Água: +60%
  • Frutas in natura: +33%
  • Ovo: +24%
  • Sardinha: +19%
  • Queijo: +17%
  • Frango in natura: +15%

A explosão da “cesta da saúde”

Os números relacionados a produtos saudáveis indicam crescimento de 17% só no início de 2025.

  • Suplementos e iogurtes funcionais crescem até 110x mais rápido que o resto do supermercado.
  • O consumo de bebidas proteicas triplicou em dois anos.
  • 50% dos brasileiros querem aumentar o consumo de proteína em 2026.

Mesmo com a carne bovina ficando 9% mais barata, o consumo caiu 8%. Mesmo com o ovo ficando 11% mais caro, o consumo cresceu 5%.

Repare que isso mostra a escolha do consumidor. É mudança de comportamento e, portanto, mudança no consumo.

O impacto das canetas emagrecedoras

Segundo a ABRABAR, associação que representa os bares e restaurantes do estado do Paraná, o consumo de medicamentos do tipo GLP-1 (canetas emagrecedoras como Ozempic, Mounjaro, etc.) está derrubando o faturamento de bares e restaurantes.

Com isso, o cliente reduziu o consumo de chopp e cerveja, se recusa a tomar a sobremesa, frequenta menos os restaurantes como os de rodízio.

Talvez estejamos diante da maior intervenção comportamental dos últimos 30 anos.

Quando isso aconteceu antes?

  • O consumo de cigarro despencou nos anos 1990 (nos países mais desenvolvidos) com programas antitabagismo.
  • O refrigerante perdeu décadas de crescimento nos anos 2000, também na onda de uma busca por bebidas mais saudáveis, e daí o surgimento do refrigerante “zero”.
  • Whole Foods virou o segmento mais lucrativo do varejo americano após ser comprada pela Amazon.
  • McDonald’s lançou saladas em 2003 — hoje, elas são metade do faturamento em muitos países.

Toda grande mudança no consumo começa silenciosa e gradual, mas costuma ser inevitável.

O erro fatal das empresas: reagir com promoção

Quando o cliente troca seu produto por outro, não é por causa do preço. Por isso ele não vai voltar a comprar diante de uma promoção. O cliente quer outra coisa, e quem não mudar o cardápio vai perder.

Quem vai sofrer e quem vai surfar

Imagine uma padaria que só vende pão de queijo e croissant, ou um restaurante que só vende prato feito com fritura e refrigerante, ou até mesmo aquela drogaria que só vende remédio.

Agora, imagine uma padaria que vende ovo cozido, frango desfiado e pratos como tapioca. Ou um restaurante que tem poke saudável, frango grelhado, suco verde. Pense nas drogarias que também vendem whey protein, creatina, suplementos e itens de estética. São esses negócios que vão surfar.

Você não deve se perguntar por que está faltando cliente. Pergunte-se para quem você ainda está vendendo. O brasileiro não está regredindo. Ele está evoluindo. E quem tenta trazer de volta o cliente do passado perde o cliente do futuro.